Boca n.º 6: A febre das triagens
Nos últimos dias tem sido de mais. A propósito das mortes ocorridas nas urgências, os responsáveis em desespero de causa começaram a levantar a hipótese de combater o fenómeno com a introdução de uma nova ferramenta: a retriagem.
Boa. Assim é que é. Se uma não chega então façam-se duas. Na verdade serão quatro, senão vejamos: a primeira faz-se quando decidimos ir ou não ir ao médico - é a proto-triagem; a segunda acontece quando ligamos para a linha de saúde 24 – é a pré-triagem; a terceira é a triagem feita no hospital – é a triagem propriamente dita, e ; a quarta triagem que é aquela que agora pretendem introduzir – a famosa retriagem que não é mais do que um atestado de incompetência aos enfermeiros que fazem a triagem.
Não sei por que motivo não se chamam os «bois» pelos nomes: para mim uma retriagem é uma quadriagem.
É caso para dizer que quando chega o momento da consulta o doente tem o direito de ser atendido pelo melhor dos médicos. Sim por que se o doente representa a elite dos doentes não desmentida pela quadriagem, não se compreende que seja atendido por um médico ainda com muitas provas para dar.
Prosseguindo, depois de separados os doentes é atribuído uma pulseira de cor a cada um de acordo com o sistema de Manchester baseado na gravidade relativa da situação do doente e correspondente tempo de atendimento: azulinho, verdinho, amarelinho, laranjinha e vermelhão. Assim por alto o vermelho é atribuído ao doente que está «vai-não-vai» e como tal é atendido de imediato; o laranja é atribuído ao doente que «está- para- ir» mas pode esperar que o médico vá fazer uma mijinha rápida, e; o azul é atribuído ao doente que «não-está-para-ir» e, assim sendo, recebe uma senha para o almoço e outra para o jantar porque a coisa vai demorar (se não recebe devia receber)
Prosseguindo, depois de separados os doentes é atribuído uma pulseira de cor a cada um de acordo com o sistema de Manchester baseado na gravidade relativa da situação do doente e correspondente tempo de atendimento: azulinho, verdinho, amarelinho, laranjinha e vermelhão. Assim por alto o vermelho é atribuído ao doente que está «vai-não-vai» e como tal é atendido de imediato; o laranja é atribuído ao doente que «está- para- ir» mas pode esperar que o médico vá fazer uma mijinha rápida, e; o azul é atribuído ao doente que «não-está-para-ir» e, assim sendo, recebe uma senha para o almoço e outra para o jantar porque a coisa vai demorar (se não recebe devia receber)
Eu sou
tuga não sou nenhum Robin dos Bosques de Manchester ou sei lá o quê. Por isso reivindico a introdução de
outras cores. Antes de mais uma pulseira de cor branca para os hipocondríacos (esperam
pela consulta enquanto falam de doenças entre si); depois uma pulseira arco-íris
para os indefinidos (esperam pela consulta enquanto se decidem se estão na
menopausa ou na andropausa) e uma pulseira de cor preta para os que morrem nas
urgências (esperam pela consulta caladinhos mas também têm o direito de não ser
incomodados). Seria bom para o morto e seria bom para o vivo porque começa a ser chato
o doente da pulseira azul meter conversa de circunstância ao doente da pulseira
laranja sem obter resposta nenhuma:
- Olha lá pá, és mudo
ou és parvo?
Silêncio.
- Estás a ouvir ou
também és surdo?
Silêncio.
Depois
de uma cotovelada para o doente da pulseira laranja acordar, mais uma e mais
outra, este acaba por cair no solo rijo que nem um carapau. Estava morto há
horas. Então não valia mais estar identificado com uma pulseira preta? Claro
que sim. No mínimo evitava dar entrada na consulta cheio de nódoas negras de
tanta cotovelada levar.
Bocaslusas
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